O CAXAMBU DE MIRACEMA

18 10 2009
Apresentação do Caxambu de Miracema

Apresentação do Caxambu de Miracema, por Raymundo

Marcelo, autor do texto

Marcelo, autor do texto

Atualmente, o único grupo de caxambu ou jongo existente em Miracema é liderado pela Sra. Aparecida Rodrigues da Silva, popularmente conhecida como Aparecida Ratinho e por seu neto Rogério Mulato, responsável pela continuidade dessa tradicional manifestação de cultura popular, reconhecida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional como Patrimônio Imaterial do Brasil.

Rogério Mulato, líder comunitário, ajuda sua avó na manutenção da manifestação, comandando reuniões, organizando festas, montando oficinas de artesanato cultural e dirigindo a Associação Senzala de Caxambu que agrega o grupo dos adultos e o grupo mirim que possui cerca de oitenta crianças e jovens do bairro.
Aparecida que é símbolo de resistência cultural da comunidade, dança desde os 14 anos de idade. Aprendeu com caxambuzeiros antigos e conhecidos de nossa história, como Maria Batuquinha e seu marido Sebastião Salú, Izabel de Almeida (a Izabel dos Cachorros), Augusto Munheca e Juraci Pepé, entre outros.

Segundo Aparecida Ratinho o caxambu, de origem africana, consiste em dança de terreiro, executada por homens, mulheres e, hoje em dia, até por crianças, formando uma roda sem a preocupação de formar pares. O solista ou “puxador de pontos”, “puxa” os cantos no centro da roda, improvisando saltos miúdos, balanceios, rodopios etc.

Os instrumentos acompanhantes são dois tambores, denominados tambu ou caxambu, candongueiro e uma cuíca que antigamente era feita de tonel de vinho ou cachaça, chamada de roncador.

Aparecida Ratinho no terreiro dançando o Caxambu
Aparecida Ratinho no terreiro dançando o Caxambu

Os ritmos executados nos instrumentos soam fortes e contagiam os integrantes da roda e toda assistência. O ronco obtido pela cuíca é responsável por tirar risos da platéia e dos próprios dançarinos do grupo, sobretudo se há na roda algum tipo engraçado, que imita animais ou tipos populares da cidade.

Os pontos (músicas) são tirados pelo dançador solista e respondidos pelo coro dos demais participantes.

O canto se inicia com os cumprimentos ao povo e aos caxambuzeiros presentes. Logo em seguida seguem os pontos que podem ser tradicionais, já conhecidos do grupo ou criados na hora, de acordo com o local da apresentação, com a paisagem do lugar, com os modos de vestir dos presentes ou com algum tipo popular presente. Antigamente, os integrantes da roda lançavam desafios que nem sempre eram respondidos, deixando a pessoa “presa no centro da roda” por várias horas e até mesmo dias, segundo contam os mais antigos.

As indumentárias femininas são do “tipo baiana”, geralmente brancas ou estampadas, preferencialmente confeccionadas de chitão. As masculinas são compostas de calças brancas, largas e de camisasconfeccionadas do mesmo tecido utilizado nas saias das mulheres.

A dança pode ser apresentada em qualquer época, sendo consideradas datas importantes as festas de São Benedito (13 de maio – dia também dos Pretos Velhos) e os festejos juninos.

Antigamente, no tempo de Maria Batuquinha e Izabel dos Cachorros, os grupos de caxambu se apresentavam na Praça da Estação, nas festas do João Cândido da Rodagem, nas festas do Sebastião Hipólito (dia 9 de agosto) na “rua do Biongo”, nos terrenos onde hoje se encontra edificado o Paço Municipal e principalmente nos comícios políticos.

Conta Aparecida, que existiam dois grandes grupos de caxambu o da UDN e do PSD. A UDN na época era presidida pelo Cel. Antonio Ventura Lopes e o PSD pelo Cap. Altivo Linhares.

Certa vez, foram para uma festa em Paraíso do Tobias, reduto eleitoral do Cap. Ventura Lopes. Após muitos fogos de artifícios e desfiles a cavalo, pediram para que Aparecida tirasse um “ponto” contra a UDN, e assim ela o fez:

“Virou o Tico-tico
e virou o sabiá
virou a UDN de perna pro ar”.

Interrompidos pela pancadaria que se iniciara, correram todos para os caminhões que os levariam de volta, quando de repente, uma nova confusão se formou. É que haviam soltado um gambá vivo dentro do caminhão com os integrantes da UDN.

A partir de 1985, após um trabalho de divulgação dos grupos de cultura popular desenvolvido pela Divisão de Cultura da Prefeitura de Miracema, o Grupo de Caxambu voltou a realizar apresentações nas praças e nas escolas da comunidade, suspensas por muitos anos pelas autoridades educacionais e religiosas por confundirem o caxambu com a macumba.

Atualmente, o grupo tem como meta a construção do “Espaço Multicultural do Caxambu”, composto de: palco para apresentações, capela, cozinha, vestiários, sala para exposição da memória do grupo, além de terreiro para as rodas de caxambu. O projeto foi desenvolvido pelo arquiteto Raymundo Rodrigues, contratado pela municipalidade durante a gestão 2005/2009.

Texto de Marcelo Salim de Martino, escrito e publicado em 1988, adaptado em 2009. Marcelo foi Diretor de Cultura do Município entre 1985 e 2008.

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